Ontem acordei sobressaltado por volta das 6:30, era a Joana a chamar-me, tinha
tido um pesadelo, o anel dela tinha sido deitado para o lixo. Drama!
Depois de explicar que tinha sido um sonho, que o anel estava lá em casa e
depois de ontem à noite ter virado a almofada para o lado dos sonhos bons, lá nos deitámos com esperança que os pesadelos não a perturbassem esta noite, e
consequente não me perturbassem também a mim.
No entanto acabei por ser novamente acordado de madrugada, pelas 6:30. Era outra
vez a Joana. Ensonado e cheio de frio lá fui até ao quarto dela pensando que
seria mais um pesadelo… o truque de virar a almofada seria falível? Claro que
não, desta vez fui acordado porque a Joana queria dar-me uma boa notícia, não
tinha tido pesadelos, tinha tido um sonho bom, sonhou com o Algarve.
Enfim, uma versão infantil do provérbio, preso por ter cão e por não ter,
neste caso, acordado por ter pesadelo e por não ter…
Nunca fui muito de jogar jogos de computador, ou melhor, nunca fui daqueles
aficionados que compram jogos atrás de jogos, assinam revistas e jogam online
contra outras pessoas de diferentes paragens. No entanto, há um tipo de jogo
que me consome desde a infância. Os jogos em que encarnamos a personagem do
treinador de futebol.
Quando era pequeno lembro-me de sonhar, literalmente, com jogos deste tipo
que ainda não existiam na altura. Tenho perfeita consciência de que uma noite
sonhei que tinha um jogo em que poderia controlar a equipa do Benfica, com os
nomes verdadeiros dos jogadores e com as suas características. Nessa altura
isso não existia e tive de esperar largos anos para o poder fazer… Em haviam
uns quantos jogos do género, quase todos britânicos. O primeiro que me lembro
de jogar chamava-se tracksuit manager. Era baseado no Campeonato Mundial de 1990.
Por defeito treinávamos a seleção da Inglaterra, com Gary Lineker, Peter Shilton,
John Barnes, entre outros. Fazia-se a qualificação e depois o Mundial. Passei
horas a jogar este jogo num spectrum emprestado, com a particularidade de
apontar os jogadores que marcavam golos e todos os resultados que ia
alcançando. Sempre gostei de compilar dados que depois não uso para nada…
O meu sonho veio a tornar-se realidade uns anos mais tarde, já depois de
ter experimento outros jogos do mesmo género, em 1994 é criada a Sports
Interactive e com ela é criado o mítico jogo Championship Manager. E pronto,
eis que a partir desta data, passou a existir na minha folha de gastos um novo
produto a ser consumido com periodicidade anual.
Primeiro foi a série Championship Manager, de 93 a 2003, salvo erro. Depois,
com a separação da EIDOS e da SI, veio o atual Football Manager, FM, para os
viciados. A separação das duas empresas levou a que a EIDOS ficasse com o nome do
produto mais rentável, o Championship Manager mas a base de dados e o motor de
jogo ficaram com a SI, que se juntou à SEGA para lançar a nova série de
simuladores de futebol agora com o nome de Football Manager.
Mesmo sem muito tempo para jogar, a verdade é que ainda hoje sou consumidor
destes jogos, confesso que por vezes às custas de tempo de qualidade que
poderia passar em família… Mas eu sonhei com jogos deste tipo, se eles agora
existem, sinto-me na obrigação de os jogar para ver se tive um sonho premonitório
e se posso ser considerado vidente. Será esta uma desculpa muito esfarrapada?
Contas feitas foram 22 horas em Nova Iorque e cerca de 17 horas em aviões/aeroportos.
Será que valeu a pena? Claro que sim, seja pelas ribs do virgil’s, pelas
panquecas do Andrews, pelos presentes para os miúdos, pelo tempo a dois ou só
mesmo pela fuga à rotina, valeu bem a pena e, se pudesse, repetia a dose todos
os meses.
Mesmo não sendo munícipe, a minha cidade é Lisboa. Se não o fosse por
razões fortes e válidas como as de nascimento (meu e da prole) seria por sentir
alguma vergonha, ainda que alheia, em ser munícipe de Oeiras.
Mas a verdade é que me sinto alfacinha e que ultimamente tenho redescoberto
a cidade através de passeios familiares onde tentamos passar o nosso gosto pela
cidade também para a Joana.
Passeios por Alfama, caminhadas junto ao rio, danças no cais das colunas, aventuras
na estufa fria, seja a pé, de carro ou de elétrico, a redescoberta da cidade em
modo de cicerone para os filhos leva-nos a sítios que conhecemos desde sempre,
mas que não apreciamos há anos. Esta redescoberta é só mais uma das maravilhas
da paternidade.
Claro está, que tudo isto podia acontecer na mesma sem que eles acordassem
às 7 da manha, mesmo aos fins de semana….
Depois de uns
dias de estaleiro com uma virose
acompanhada de uma agradável otite, eis que me sinto finalmente a 100%.
Nos dias que passei em casa pude constatar que entrámos em Novembro que o
meu filho fez um ano e que daqui a dois meses estamos a celebrar mais um Natal.
É impressão minha ou ainda ontem estava programar as férias do verão e
anteontem nasceu o Francisco? O calendário está claramente em excesso de
velocidade.
Ontem morreu o Lou Reed, tinha 71 anos. Assusta pensar que era
mais novo do que o meu pai…
Nunca ouvi muito os Velvet Underground e também não acompanhei com a devida
atenção a carreira a solo do Lou Reed, no entanto era um artista de quem
gostava muito. Tenho um enorme respeito por carreiras longas. Acho o
prolongamento da exposição pública uma prova de humildade, de crença, de
confiança e de carácter, mesmo depois de se ter alcançado algo memorável e
muitas vezes, irrepetível.
Aprecio isto em várias artes, música, literatura ou mesmo no futebol. Achei
bonito o João Pinto não ter pudor em acabar a carreira no Braga, assim como o Nuno
Gomes ter jogado na segunda divisão inglesa na época passada. Isto depois de
terem ambos carreiras bastante bem sucedidas. Esta forma de viver revela
carácter e quem o tem, tem o meu respeito.
O Lou Reed também o tinha e daí este post e o meu lamento pela sua morte. Não
conhecendo amplamente a sua obra, há uma música dele, ainda na fase Velvet, de
que gosto muito. Heroin. Conheci-a na adolescência, através do filme the Doors,
do Oliver Stone, numa banda sonora que ouvi até à exaustão. No meio de tantos
temas o que mais rodava era o heroin, faixa 9 do cd que nem era meu, foi-me
emprestadado e ainda deve andar lá por casa…
O tema fala da heroína e dos seus efeitos, sem apelo ao consumo mas
igualmente sem hipocrisias e sem ser politicamente correcto. Há muitos versos
que merecem destaque, desde o Heroin,
it's my wife and it's my lifeaté ao mais concreto: Ah, when the heroin is in my
blood / And that blood is in my head / Then thank God that I'm as good as dead
/ Then thank your God that I'm not aware / And thank God that I just don't care.
É um grande tema e um tema que muita curiosidade me suscitou nos tempos de
descoberta, but thank God that I’m still unaware.
Um dos filmes que mais gostei de ver e que revejo sempre com prazer chama-se Good Will Hunting, O Bom Rebelde, em português. É um filme inspirador em vários aspectos Começa por ser inspirador ainda antes de ter sido realizado, tudo
porque, pelo menos assim reza a lenda, os dois argumentistas e futuros protagonistas
do filme, Ben Affleck e Matt Damon resistiram a vender o argumento e consequentemente
a sua participação no filme, passando inclusivamente por dificuldades
financeiras, por acreditarem muito na equipa que eles queriam que realizasse e
protagonizasse o filme. A equipa vencedora incluía, além dos já citados, outros
nomes como Casey Affleck, Minnie Driver, o grande Robin Williams e o realizador
Gus Vant Sant.
Quando finalmente o filme estreou, conquistou público e crítica e até a
academia, tendo recebido o oscar para melhor argumento original.
Como é que o filme veio ontem à baila? É que ontem tive esperança de viver,
na minha vida real, um dos episódios marcantes do filme. A páginas tantas o Psicólogo
protagonizado pelo Robin Williams conta ao problemático Matt Damon uma
peripécia que envolve um dos melhores jogos de basebol da história, um jogo
para o qual ele tinha bilhete para ir ver. Finalizado o relato, com direito a
simulação de home run com invasão de campo e tudo, o Matt Damon exclama algo do
género, “Epá, não acredito que viste esse jogo ao vivo” ao que o Robin Williams
diz, “Eu, eu não vi. Fiquei no bar por causa de uma miúda”. (agora que vi o
clip, não é bem assim, mas não alterei o texto, foi de memória)
Ontem jogava o Benfica, liga dos campeões, jogo grande que, ainda não sendo
decisivo, pode ajudar a decidir o apuramento. Eu tinha bilhete, mas preferi
jantar em casa, com a minha mulher, os meus filhos e com um amigo e a sua
namorada. Este amigo, para ajudar à festa, partilha comigo e com a Xana o
fascínio pelo filme. Estava tudo alinhado e então confesso que tive esperança que
fosse perder um jogo épico e que daqui a muitos anos pudesse dizer, epá tinha
bilhete para esse jogo onde, e agora divago, o Cardozo marcou 3, um deles de
bicicleta e onde o Ivan Cavaleiro, hoje estrela mundial e melhor jogador do
mundo, se estreou na Champions pelo Benfica. Então alguém me perguntaria, “a sério
viste isso ao vivo??” E surgia a minha resposta, com um misto de felicidade e
amargura, “não, fiquei em casa a jantar com a família e uns grandes amigos que
já não via há muito, tive uma noite ainda mais fantástica do que o jogo”.
A verdade é que a noite em casa foi muito melhor do que o jogo, mas
infelizmente ainda não posso dizer que tive o meu momento Good Will Hunting.
Quem falhou foi o Benfica, não fomos nós.
Married, father of two. É impressionante como 4 palavras permitem logo dizer tanto acerca de mim. Casado, pai de dois, em inglês porque há frases que assim soam melhor. Essas palavras escondem um mundo inteiro de boas sensações e algumas frustrações. Muita alegria, muito amor, muitas saudades, muita intensidade colocada no dia-a-dia.